Os estilos literários na Torá

No livro de Josué, capítulo um versículo oito, lemos o seguinte:

Não se aparte da tua boca o livro desta lei (Torá), antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido.”

Esta orientação foi dada a Josué na véspera da conquista da terra de Canaã. Entendemos que o êxito da conquista dependia da capacidade e da vontade de Josué e o povo de obedecer à Torá. Então, antes da entrada do povo na terra prometida, a Torá já assumiu um papel importantíssimo na vida dos filhos de Israel. Ela continha as instruções de Deus para que a conquista seja bem sucedida.

Na realidade, a melhor maneira de traduzir a palavra Torá é “instrução”. A palavra “lei” que é muitas vezes empregada como tradução comunica a idéia de algo estático e que não fala mais às comunidades religiosas que usam a Torá. Por isso, quando a Sociedade Publicadora Judaica dos EEUU produziu sua nova tradução da Tanakh,[1] as Escrituras Sagradas, uma das palavras escolhidas para traduzir a palavra Torá foi a palavra teaching, ensinamento. A implicação é que na Torá o leitor encontrará algo dinâmico que veio do Deus Vivo. É aquilo que Deus passou para seu povo como orientação perpétua.

Mas, nosso propósito aqui não é falar em termos gerais da Torá. Nosso propósito é falar da Torá como literatura e como literatura a Torá é de natureza dupla. Ela é uma unidade literária que contem, ao mesmo tempo, uma variedade de estilos literários. Sua unidade procede primeiramente da tradição mosaico.  Moisés é a figura principal associada com a preservação e transmissão da Torá.

Além da tradição mosaica que une a Torá, existe uma unidade histórico-teológica, também. O propósito da Torá é narrar a história da formação do povo de Israel do ponto de vista do plano de Deus para o povo que ele mesmo criou. Os aspectos históricos da Torá são inseparavelmente entrelaçados com o seu propósito religioso de maneira que a própria história pode ser considerada uma expressão teológica do povo hebraico. Na Torá o Deus de Israel é o Deus que cria e destrói (Gn.1.1; 7.23), que chama e preserva (Gn. 12.2,3; 45.7), que liberta e guia (Êx. 14.30; Dt. 29.5,6). Ele fez promessas e cumpriu-as (Gn. 12.1-3; Êx. 1.6,7) e fez alianças (Gn.15.8; Êx. 19.5,6) e deu a sua lei ao povo para orientá-lo e preservá-lo como um povo santo na terra (Lv. 20.22-24; Dt. 29.29). Assim, a Torá é a instrução divina para o povo de Deus e sua unidade se encontra nesta função.

Dentro desta unidade histórico-teológica, porém, existe uma diversidade literária. Os grandes atos de Deus em favor do seu povo são registrados em estilos literários diferentes. Esta diversidade forma um tecido literário de várias “cores” e “texturas” que atrai o leitor tanto pela sua beleza quanto o seu conteúdo.

O indivíduo em nossa época que normalmente recebe o crédito para o reconhecimento da diversidade literária do texto bíblico é o crítico alemão Hermann Gunkel.[2] Gunkel reconheceu que dentro do texto bíblico existem unidades literárias que formam o texto. Ele identificou vários tipos ou formas literária no texto–histórias orais, poesias, leis, e provérbios–que, conforme Gunkel, foram juntadas para criar o texto maior. O estudo dessa unidade literárias é chamado a crítica das formas.

O trabalho de Gunkel formou a base para investigações mais detalhadas da literatura bíblica. O crítico alemão Otto Eissfeldt escreveu uma introdução ao Antigo Testamento do ponto de vista da crítica das formas.[3] Eissfeldt identificou mais do que 50 formas literárias no AT divididas em três grupos principais: prosa, ditados, e canções. Ele identificou exemplos de todos esses estilos na Torá.

Nós reconhecemos a importância das contribuições de Gunkel e Eissfeldt nas o nosso trabalho aqui não seguirá as mesmas linhas do trabalho deles e será muito mais modesto. Aqui temos tempo somente para traçar em largas pinceladas três formas literárias principais na Torá—as narrativas, as poesias, e as leis. Comecemos pelas narrativas:

As Narrativas da Torá

Apesar da identificação da Torá com a lei, a maioria do material da Torá é narrativa. Dos 187 capítulos da Torá na Bíblia cristã mais do que a metade são narrativas ou contêm principalmente narrativas. Em termos gerais uma narrativa é uma história prosaica que relata eventos em ordem cronológica, tem personagens que se relacionam entre si e que tem um propósito específico.

No texto bíblico as narrativas têm uma função específica. De acordo com Deuteronômio 4.9, as narrativas do povo de Israel funcionavam como “arquivos”  da história e das  tradições do povo:

Tão somente guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, que não te esqueças daquelas coisas que os teus olhos têm visto, e não se apartem do teu coração todos os dias da tua vida; e as farás saber a teus filhos, e aos filhos de teus filhos.

Como arquivos, essas histórias podem ser “reabertas” à cada nova geração de leitores para trazer de volta as memórias históricas significativas do passado.

A capacidade de “reviver” o passado por meio de narrativas históricas é devido a natureza da revelação de Deus aos filhos de Israel. Em termos gerais, Deus se revelou ao povo de Israel por meio da história, isto é, por meio de eventos históricos específicos. Esses eventos foram registrados, transmitidos, e interpretados à luz dos propósitos de Deus para cada nova geração de israelitas. Assim toda nova geração participava nos eventos do passado como se fossem sua própria história. A recitação desses eventos fazia aparte das confissões de fé e nas renovações da aliança ao longo da história de Israel  (Dt. 26.1-11; Js. 24.1-27; Sl. 105).[4]

As narrativas da Torá são variadas em termos da sua função.[5] Por exemplo, temos exemplos de etiologias ou narrativas de origens na Torá. As narrativas de origens não são as narrativas de criação, mas são narrativas que relatam a origem de nomes, costumes, coisas, ou lugares. Um exemplo de uma narrativa de origens é Gênesis 16. Outras narrativas são relatórios ou narrativas que preservam eventos ou acontecimentos importantes na vida do povo. Um exemplo de um relatório se encontra em Êx.  17.8-13. Encontramos biografias que não somente preservam episódios da vida de uma pessoa mas que, também, interpretam o significado da vida da pessoa para os leitores de outras gerações. Um exemplo de uma biografia deste tipo é a narrativa de José. As narrativas litúrgicas são as narrativas que procedem da vida cultual do povo e que têm uma função dentro do culto de Israel. Gênesis 1 tem as características de uma narrativa litúrgica.

Agora, vamos fazer uma breve análise de uma das narrativas da Torá para mostrar a sua função como depósito de história significativa à vida do povo. Eu escolhi um relatório que talvez não seja tão conhecido quanto as demais narrativas da Torá: Êx. 17.8-16. Esse relatório fala do encontro entre os filhos de Israel e Amaleque, em Refidim. É uma unidade independente que faz parte de uma série de narrativas que relatam a jornada dos filhos de Israel do Egito a Sinai. A narrativa começa com uma conjunção, traduzida “então” pela Versão Revisada e introduz o leitor a uma novo evento nessa série de eventos. A conjunção serve a dois propósitos principais: uma função conjuntiva e uma função disjuntiva. Na função disjuntiva, a conjunção separa essa narrativa da narrativa anterior e marca o início de uma nova unidade de material. Na sua capacidade conjuntiva, a conjunção liga a narrativa à narrativa anterior. Assim, o leitor é avisado da conexão, mesmo implícita, entre a contenda dos filhos de Israel na narrativa anterior e a oposição de Amaleque.

O propósito principal dessa narrativa se encontra na declaração no v. 14:

Então disse o SENHOR a Moisés: Escreve isto para memória num livro, e relata-o aos ouvidos de Josué; que eu totalmente hei de riscar a memória de Amaleque de debaixo dos céus.

Essa narrativa não somente preservou o relatório da batalha entre Israel e Amaleque mas também, explica a origem da inimizade entre os dois povos ao longo da História de Israel.

A história dessa inimizade continuou nos dias de Samuel. Em 1Sm. 15 Samuel enviou Saul contra os amalequitas por aquilo que fizeram a Israel em Refidim. Saul feriu os amalequitas mas tomou vivo o seu rei Agague bem com seu gado. Samuel soube o que Saul fez e enfrentou o rei israelita e comunicou-lhe que Deus ia tirar dele o trono de Israel porque ele não tirou a cabeça de Agague. Samuel completou a tarefa e Saul entrou em depressão.

Mas, a história não parou aqui. Mais tarde, depois do Exílio, na terra de Pérsia, um outro descendente de Quis, o pai de Saul, chamado Mardoqueu, enfrentou Hamã, um dos descendentes de Agague, o amalequita. Mas uma vez, o amalequita (ou agagita como o texto massorético diz) perdeu sua vida porque ousou opor-se ao povo de Deus.

Se a narrativa sobre a conquista dos amalequitas só tivesse propósito histórico seria motivo suficiente para incluí-la na Torá. Mas, a história tem uma função etimológico-teológica, também. Explica a origem do título JAVÉ-Níssi, ou “o SENHOR é a minha bandeira.” Para Israel O SENHRO é seu estandarte, o ponto de reagrupamento onde as forças podem ser renovadas. A vitória é do SENHOR e ninguém pode impedir o seu avanço. Aqueles que ousam opor seu avanço correm o risco de serem atropelados pelas suas forças. Então, as narrativas da Torá falam claramente da natureza de Deus e preservam seus grandes atos em favor do seu povo de geração à geração.

A Poesia na Torá

Um segundo estilo literário que se encontra na Torá é a poesia. A poesia hebraica é caracterizada pela sua estrutura e ritmo e não pela sua rima. A característica mais comum é o paralelismo, isto é, o equilíbrio de pensamentos.

Infelizmente, muitas Bíblias, especialmente as mais antigas, não fazem uma distinção entre trechos prosaicos e trechos poéticos. Assim, muitas vezes a poesia bíblica não é reconhecida pelo leitor porque não imprimida em forma de versos. Esta deficiência está sendo corrigido nas versões da Bíblia mais recentes.

As poesias na Torá não são tão comuns como as narrativas e são geralmente espalhadas entre as narrativas. Como é o caso das narrativas, as funções das poesias são variadas e incluem cânticos, falas proféticas, e bênçãos. Essas poesias refletem a vida comunitária do povo de Israel e preservam as mais antigas expressões literárias artísticas dos hebreus.

Algumas poesias da Torá têm vitorias militares como seu contexto histórico. Umas das mais antigas canções de vitória é a canção de Miriã em Êx. 15.21. Uma forma mais completa da canção se encontra no mesmo capítulo, a partir do primeiro versículo. Essas canções expressam de maneira lírica a resposta dos filhos de Israel aos eventos que aconteceram na praia do mar durante o êxodo do povo do Egito. O ponto focal dos cânticos é a vitoria do SENHOR sobre os egípcios:

Cantarei ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro. (Êx.15.1)

A linguagem é de guerra e o próprio Deus é retratado como um poderoso guerreiro que conquista os  seus inimigos. (v. 3, 4-7)

Uma outra poesia de guerra que muitas vezes não é reconhecida se encontra na narrativa de que tratamos acima, isto é, a batalha entre Amaleque e Israel. Essa narrativa contem uma breve poesia que fala da inimizade eterna entre Deus e os amalequitas. A Versão Revisada traduziu o cântico assim: Porquanto jurou o SENHOR que ele fará guerra contra Amaleque de geração em geração.” Nesta tradução a natureza poética não é bem percebida. Uma outra maneira de traduzir a mesma passagem que preserva melhor os elementos poéticos seria:

Mãos levantadas ao trono do SENHOR.

O SENHOR pelejará contra Amaleque

De geração a geração.

A vitória do SENHOR na guerra foi ligada à presença da arca da aliança, também. Antigamente, quando Israel ia a guerra contra sues inimigos, a arca acompanhava o exército ao campo de batalha. (Veja 1Sm. 4.1-4) A presença da arca foi uma manifestação visível da presença de Deus no meio do seu povo. Essa presença foi reconhecida quando o povo marchava durante o Êxodo. Quando a arca partia, estas palavras eram faladas:

Levanta-te, SENHOR, e dissipados sejam os teus inimigos, e fujam diante de ti os odiadores. (Nú. 10.35)

Quando a arca voltou, um outro cântico foi levantado:

Volta, ó SENHOR, para os muitos milhares de Israel.

(ou, Tu que és os milhares de Israel) (Nú. 10.36)

Nessas expressões poéticas está claro que os filhos de Israel confiavam no poder do SENHOR no campo de batalha. Esses cânticos relembram as vitórias do SENHOR e sua presença ao lado do seu povo nas lutas. O Deus de Israel é um Deus de guerra que vale milhares de milhares de israelitas e sempre estava disposto a pelejar pelo seu povo. Quando Ele saia para pelejar, Ele sempre voltava aos seus, trazendo vitória ao seu povo.

A Leis na Torá

Uma das funções principais da Torá é a preservação e transmissão da lei de Deus. É a presença da lei na Torá que dá destaque a esta parte da Bíblia. Apesar das demais formas literárias que se encontram na Torá, sempre será o seu aspecto legal que receberá a atenção do leitor. As narrativas da Torá explicam como o povo recebeu a lei diretamente de Deus por intermediário de Moisés. Essa lei formou a base da aliança que Deus forjou com o povo e o povo aceitou a lei como a condição divina para participar na aliança. O propósito da lei foi orientar a vida da comunidade israelita. Assim, pode ser chamado a vontade de Deus para o povo de Israel. Como o salmista escreveu:  “Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração. (Sl. 40.8)

Em termos gerais, a forma da lei hebraica reflete a forma genérica das leis dos povos do Oriente Médio antigo. Eissfeldt identificou duas formas genéricas de leis do Oriente Médio antigo:  as leis categóricas e as leis condicionais.[6] As leis categóricas ou apodíticas, são os mandamentos absolutos e proibições diretas como, por exemplo, não matarás. As  leis condicionais ou casuísticas, tratam de casos específicos na vida cotidiana do povo. Exemplos de leis condicionais se encontram em Êx. 21-23.

A Torá preserva alei em várias coleções ou códigos. O código mais conhecido é certamente o Decálogo, os Dez Mandamentos. O Decálogo é central à aliança feita com Israel no Sinai e formou a base legislativa das demais leis. É geralmente reconhecido que o Decálogo se divide em duas “dimensões”:  a dimensão vertical e a dimensão horizontal.[7]

A dimensão vertical se encontra nos primeiros quatro mandamentos e trata da centralidade de Deus como o único e suficiente Deus de Israel. Foi ele quem tirou o povo da escravidão no Egito com a finalidade de formar uma aliança com o povo e levar o povo para a terra prometida. Por isso, ele não tolerava nenhum outro deus no seu lugar como o Salvador de Israel. Os mandamentos cinco a dez tratam da dimensão horizontal do Decálogo e destacam o relacionamento do indivíduo para com seu próximo e preservam os direitos de outras pessoas. No Decálogo podemos ver que o ser humano tem uma obrigação tanto para com Deus quanto para com seu próximo. No Novo testamento Jesus deu continuidade a este aspecto da lei quando ele respondeu à pergunta dos fariseus sobre o grande mandamento. Na sua  resposta ele reduziu toda a lei judaica a estas duas dimensões:  “Amará ao SENHOR teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento . . . e o segundo, semelhante a este, é: amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Mt. 22.37, 39)

Depois do Decálogo vem o Livro da Aliança. (Êx. 20.22-23.33) Em geral as eis do Libro da Aliança têm a forma casuística, isto é, tratam de casos específicos da vida do povo hebraico. São chamadas leis condicionais porque muitas são introduzidas pela palavra “se” (ki) que estabelece o elemento condicional. A organização das leis do Livro da Aliança é relacionada à organização do Decálogo. Podemos ver tanto a dimensão vertical quanto a horizontal nestas leis. O código começa e termina com leis relacionadas ao culto de Israel, a dimensão vertical. (Êx. 20.22-26; 23.10-19) As leis horizontais tratam de casos relacionados ao tratamento de pessoas e propriedade e casos de imoralidade e dos direitos  dos necessitados.

Para a igreja essas leis parecem arcaicas, completamente fora do nosso contexto, e sem nenhuma aplicação prática para a igreja a não ser que seja histórica. Mas, o Livro da Aliança nos traz uma visão de um Deus que se preocupa com as infra-estruturas sociais do seu povo. Essas leis visaram a organização da comunidade israelita de uma maneira justa. As leis procuraram manter a dignidade de pessoas, mesmo quando essas pessoas são servas ou escravas. (Êx. 21.1-16) O direito de possuir propriedade é reconhecido, mas, junto ao direito de possuir há a responsabilidade de administrar e usar a propriedade de um modo que não prejudique a sociedade. (Êx. 21.33-22.15) Há um notável preocupação com a condição dos estrangeiros, oprimidos e fracos da sociedade. (Êx. 22.21-24) Então, essas leis dão evidência de que Deus é sensível às necessidades do seu povo e providenciou um modo de proteger a estrutura da sociedade.

A lei hebraica visou a preservação da santidade da comunidade, também. A preservação da santidade é a preocupação principal do código de santidade que se encontra no livro de Levítico, capítulos 17 a 26. A chave do código de santidade é a frase que é repetida várias vezes no texto: “Sereis santos, porque eu, o SENHOR vosso Deus, sou santo.” A base da santidade no código é a santidade do próprio Deus. A implicação da santidade no que diz respeito ao povo é a necessidade de se separar dos costumes dos povos que não adoravam ao SENHOR Deus. O propósito da lei da santidade foi proteger o povo de Israel da ameaça do paganismo. Por isso, a lei diz em Lv. 20.22,23:

Guardai, pois, todos os meus estatutos, e todos os meus juízos, e cumpri-os, para que não vos vomite a terra, para a qual eu vos levo para habitar nela. E não andeis nos costumes das nações que eu expulso de diante de vós, porque fizeram todas estas coisas; portanto fui enfadado deles.”

 

A Torá ofereceu aos  filhos de Israel um modo de fazer diferença entre costumes saudáveis e costumes abomináveis e assim, manter-se longe do perigo do paganismo. O  paganismo é sempre uma ameaça à fé verdadeira e o povo de Deus deve estar sempre alerta a esse perigo. G. E. Wright., no seu livro O Deus que age, escreveu sobre a necessidade que a igreja tem do Antigo Testamento. Sobre a ameaça do paganismo ele disse:  “A igreja que desconhece o Antigo Testamento torna-se presa fácil do paganismo e não pode dar resposta ou esperança ao homem em dilema desesperador.”[8]

O último código de leis na Torá é a lei deuteronomista. O livro de Deuteron6omio é muitas vezes confundido com um livro que, meramente, repete a lei anterior em outras palavras. O próprio título sugere isso, pois, Deuteronômio quer dizer “segunda lei.” Mas, uma leitura do livro mostra que esse livro não é simplesmente uma repetição da lei, mas é uma releitura da lei num contexto diferente. A lei deuteronomista foi dirigida a um povo na véspera da conquista da terra de Canaã. As necessidades desse povo foram específicas e a releitura da lei visou essas necessidades. Neste  novo contexto o povo precisava de uma exortação firme e forte contra os perigos de compromisso religioso com os habitantes da terra. Por isso, a lei diz:

Quando o SENHOR teu Deus te houver introduzido na terra, à qual vais para a possuir, e tiver lançado fora muitas nações de diante de ti . . .  e o SENHOR teu Deus as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas; Porque povo santo és ao SENHOR teu Deus; o SENHOR teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra. (Dt. 7. 2,6)

As leis de Deuteronômio têm características de exortações à obediência e não simplesmente orientação religiosas e restrições cultuais. Há no livro de Deuteronômio um dinamismo que leva o leitor a entender que as leis de Deus não são estáticas e paradas no tempo mas têm um aspecto dinâmico e vivo. São leis que podem e devem ser re-interpretadas para cada nova geração.

Conclusão

Os aspectos literário da Torá merecem uma análise muito mais completa do que é possível nesse breve ensaio. O nosso propósito foi introduzir e destacar alguns elementos literários da Torá, esperando despertar o interesse num estudo mais profundo e completo por parte dos estudantes da Torá. A sua diversidade literária é um testemunho à complexidade da composição da Torá e o seu dinamismo. Mas, sua diversidade literária não pode esconder sua unidade histórico-teológica. Deus permitiu que a sua revelação fosse registrada numa forma escrita diversa e complexa nas que preservou fielmente sua natureza e sua vontade par o seu povo.


[1] Tanakh: The Holy Scriptures. Filadelfia: The Jewish Publication Society, 1988.

[2] Um exemplo do trabalho de Gunkel se encontra em What Remains of the Old Testament and Other Essays, tradução de A. K. Dallas (New York: Macmillan, 1928).

[3] Otto Eissfeldt, The Old Testament: An Introduction, tradução de Peter J. Ackroyd (New York: Harper &Row, 1976).

[4] Veja os ensaio de G. E. Wright, O Deus que age, tradução de Sumio Takatso, (São Paulo: ASTE, 1967) para entender a importância da recitação dos atos históricos à fé de Israel.

[5] Eissfeldt reconheceu dois tipos gerais de narrativas—históricas e poéticas. Dentro dessas categorias gerais, ele identificou sub-categoria como , por exemplo, mitos, lendas, realtórios, histórias populares, e autobiografias. Veja Eissfeldt, pp. 27, 28. Porque a nossa análise procede de pressuposições diferentes, escolheremos outras categorias.

[6] Eissfeldt, pp. 27, 28.

[7] Veja, por exemplo, Gerhard von Rad, Old Testament Theology, vol. 1, tradução de D. M. G. Stalker (New York: Harper & Row, 1962), pp. 191,192.

[8] Wright, p. 28.

3 respostas para Os estilos literários na Torá

  1. Odaías Rocha disse:

    muito bom

  2. jonas gomes disse:

    valiosos demais esse sitio

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