O livro de Deuteronômio na sala de aula e na igreja

Quando eu era seminarista, o conselho que ouvi de todos foi “Leia a Bíblia.” Às vezes, esta exortação vinha dos pregadores convidados para falar nos cultos na capela, às vezes de professores na sala de aula. Levei a sério este conselho e procurei momentos durante o dia quando, eu podia fazer estas leituras. Muitas vezes, as leituras foram feitas para preencher os requerimentos de uma disciplina, que estava cursando. Assim tentei “matar dois coelhos com uma só cajadada”, se posso falar assim.

No início, as minhas leituras visavam produzir mais conhecimento do conteúdo da Bíblia e me inspirar. Leituras puramente “acadêmicas” começaram, quando ingressei nos estudos do doutorado. A esta altura, consegui fazer uma “separação” entre uma leitura pessoal e devocional e uma leitura acadêmica e científica. Nas raras ocasiões quando tive que pregar, procurei, normalmente em vão, harmonizar o que ouvi na sala de aula e o que ouvi na igreja. Muitas vezes minhas pregações deram evidências da dificuldade de conciliar uma leitura acadêmica e homilética.

A minha experiência como estudante da Bíblia aponta uma situação que existe na mente de muitos, mas nem sempre é reconhecida pela igreja ou pelas instituições acadêmicas, isto é, que existe uma diferença entre a leitura da Bíblia nas instituições acadêmicas e nas igrejas. O pregador não trata as questões “acadêmicas” do texto que pretende pregar porque pensa que não é proveitoso expor os detalhes “críticos” do púlpito, e o professor aborda principalmente as questões “acadêmicas” porque pensa que o lado “homilético” não é assunto adequado para uma sala de aula.

Mas esta diferença não deve apresentar dificuldades para o professor, nem para o pregador. É lógico que na sala de aula o professor vai, por necessidade, abordar assuntos que não são normalmente tratados do púlpito. De igual modo, porque o pregador sente a necessidade de exortar e edificar a igreja, não aborda assuntos críticos que não ajuda a igreja entender e cumprir a sua missão. A solução se encontra na maneira em que estes assuntos são abordados, tanto pelo professor, como o pregador.

Neste trabalho, pretendo tratar desta questão à luz da leitura do livro de Deuteronômio. Este livro apresenta, tanto pelo seu conteúdo como sua estrutura, um exemplo de como integrar os aspectos acadêmicos e homiléticos. Quero tratar primeiramente as questões que podem ser consideradas mais “acadêmicas” e depois, tentar mostrar como o conhecimento dos aspectos “críticos” do livro pode ajudar o pregador na sua tarefa na igreja.

A estrutura literária de Deuteronômio

O título “Deuteronômio”, da palavra grega deuteronómion, pode indicar que o livro é uma “segunda lei” além da primeira que foi dada em Êxodo.  Este título, porém, não descreve adequadamente o conteúdo do livro. O livro não é numa segunda lei além da primeira, mas uma reapresentação da lei para a geração de israelitas que estava se preparando para entrar e tomar posse da terra de Canaã. Na língua hebraica, a palavra traduzida “lei” em português é a palavra torá.  Esta palavra pode significar “lei” no sentido jurídico, isto é, uma ordem ou proibição, mas no contexto mais amplo do Antigo Testamento, a palavra torá significa “instrução.” Assim, quando Moisés expôs a “lei” para o povo, ele estava comunicando as “instruções” de Deus no sentido mais amplo da palavra “lei.” A implicação é que a “lei” de Deus é dinâmica e que se aplica a cada nova geração do povo de Deus.

A estrutura literária de Deuteronômio tem duas características importantes que compõem a sua unidade. Primeiro, o livro reflete a estrutura de tratados antigos de vassalagem. Tratados de vassalagem do Oriente Médio antigo trataram do relacionamento entre uma nação superior e um estado subjugado. A finalidade destes tratados era delimitar as obrigações tanto do estado dominador como o estado dominado.[1]

A segunda característica que forma sua unidade é que o livro se apresenta como uma série de discursos ou “sermões” de Moisés. Uma análise da estrutura dos discursos feito por Robert Polzin[2] demonstrou que o livro apresenta duas vozes principais: a de Moisés e a de Deus. Além dessas “vozes”, ele identificou a “voz” de um “narrador” deuteronomista.[3] Um dos aspectos da voz do narrador é seu interesse na atualização da lei para a nova geração de israelitas. Esse interesse se reflete pelo uso da frase “até o dia de hoje”[4] que se encontra pelo menos 16 vezes no livro. O uso desta frase mostra uma “tendência atualizante” no livro.[5]

O primeiro discurso é um resumo histórico. Moisés começou pela recitação dos eventos principais desde Sinai até as planícies de Moabe, ao lado leste do Jordão, onde o povo se acampou antes de entrar na terra.  O segundo e maior discurso é a exposição da lei. A partir de 4.45 até o fim do capítulo 28, Moisés deu orientações específicas baseadas na lei sobre a vida do povo na terra.  Começando pelos Dez Mandamentos, Moisés interpretou e explicou as implicações da lei para a nova geração de israelitas. Esta parte termina com uma lista de bênçãos e maldições.

O terceiro discurso que começa no capítulo 29 e termina no capítulo 33, trata da renovação da aliança do Sinai. A reafirmação da aliança após a releitura da lei implica na capacidade da lei ser atualizada através das gerações, sendo este fato importante para a leitura do livro hoje. O livro termina com um relatório da morte de Moisés.

Uma leitura teológica de Deuteronômio

Uma leitura contemporânea do livro de Deuteronômio para a Igreja atual deve começar pela sua teologia. É a teologia do livro que fala à Igreja mais que a sua história. É da competência do leitor tentar descobrir esta mensagem teológica.  Como a Igreja faz isso?

A teologia do livro é determinada tanto pelo seu conteúdo quanto a sua estrutura. Como já notamos, o livro se apresenta como uma série de três sermões de Moisés dirigidos ao povo na véspera da entrada na terra de Canaã. O livro começa pela frase: “Estas são as palavras ditas por Moisés.” À luz do contexto do livro, sabemos que estas palavras não são as palavras de Moisés, e sim as palavras que Moisés recebeu de Deus para entregar ao povo (Dt.1.3). Conforme Dt. 1.5, o propósito destes discursos foi expor a lei. Assim, o livro tem uma função homilética. Nestes discursos Moisés interpretou a lei que foi entregue à geração que saiu do Egito para a nova geração de israelitas. Esta exposição pode ser chamada uma forma de “atualizar” as tradições antigas para a nova geração.

 Lições da história

O primeiro sermão é um resumo dos eventos históricos que aconteceram durante os quarenta anos de peregrinação do povo pelo deserto. Moisés relembrou o povo que o Senhor o Deus de Israel deu a terra ao povo (1.8). Era para o povo avançar e tomar a terra, como o Senhor Deus ordenou (1.21), mas o povo se rebelou contra a ordem divina e conseqüentemente passou quarenta anos no deserto, até aquela geração morrer (1.43-46). Depois do período no deserto, Deus deu a ordem para avançar de novo e tomar a terra (2.2,3). Deus deu ordens bem específicas quanto ao avanço do povo para Canaã (2.9, 17-19) e prometeu vitória sobre os seus inimigos (2.25).

Qual é a importância desta recitação histórica à teologia do livro? A resposta se encontra no significado da história para a vida nacional de Israel. Moisés explicou o propósito da recitação histórica no capítulo 4: “Para que vocês nunca se esqueçam das coisas que os seus olhos viram; conservem-nas por toda a sua vida na memória” (4.9 NVI). Esta recitação, além de ser uma lição histórica, serviu para chamar a atenção do povo para o perigo da desobediência e da necessidade de guardar as exigências da aliança.[6]

Deus em primeiro lugar

O segundo sermão começa no capítulo 5 e forma a maior parte do livro. Após uma introdução histórica (4.44-49), encontramos uma reiteração dos Dez Mandamentos (5.1-22). A colocação dos Dez Mandamentos no início desta reapresentação da lei é notável. No livro de Êxodo, o Decálogo precede a apresentação da lei também. Este fato é importante para a compreensão da teologia do livro porque indica que os Dez Mandamentos formaram a base de toda a instrução de Deus para o seu povo e devem ser lidos e aplicados a cada nova geração.[7]

A importância dos Dez Mandamentos à teologia de Deuteronômio e do Antigo Testamento em termos gerais não pode ser subestimada.  Uma análise da estrutura do Decálogo mostra que as leis se encontram em duas “dimensões,” a “vertical” e a “horizontal.” As leis na dimensão “vertical” tratam do relacionamento entre Deus e seu povo e as no sentido “horizontal” tratam dos relacionamentos interpessoais. Pelo fato de as leis na dimensão “vertical,” que tratam do relacionamento divino-humano, precederem as leis “horizontais”, elas formam a base das leis na dimensão “horizontal”, que tratam dos relacionamentos interpessoais. Assim, o Decálogo serve como o “guia” para interpretar o resto das leis da aliança. Para o povo de Deus, o Senhor é o fundamento absoluto da vida e sociedade.

Uma sociedade fundada na base da orientação divina deveria exibir características específicas. Neste sermão, Moisés apresentou várias características que os israelitas deveriam demonstrar. Em princípio, Dt.6.4-9 declara que Deus deveria ocupar o primeiro lugar em tudo. Sendo Deus o fundamento absoluto da sociedade, a obediência motivada por amor é principal[8](6.3). Esta obediência estendeu até a ordem de exterminar completamente as nações indígenas pagãs, que habitavam na terra (7.1,2). A exterminação dos povos pagãos e as proibições de não se casar com os habitantes da terra tinham o objetivo cumprir a promessa divina de castigar os povos pela sua iniqüidade (Gn. 15.16) e de proteger o povo das influências pagãs destas populações (7.3-5). Entendemos que Deus tinha todo direito de exigir isso dos Israelitas, porque eles pertenciam a ele (7.6).

Sendo o Senhor o único Deus para Israel, Moisés exortou o povo à obediência incondicional. (8.1,6; 10.12; 11.1) Deus prometeu permanência na terra como conseqüência da obediência (8.1) e a destruição pela infidelidade (8.19,20). Deus prometeu expulsar as demais nações de Canaã, não porque Israel era mais justa das demais, mas por causa da iniqüidade dessas nações e porque Deus foi fiel as suas promessas aos patriarcas (9.1-8). A resposta mais adequada a este Deus é amor, obediência (10.1) e adoração pura e verdadeira (12.1-32). Idolatria é expressamente proibida (13.17; 16.21-17-7) e qualquer pessoa que se chamasse de profeta e tentasse levar o povo a abandonar o Senhor, deveria ser morta (13.5). O povo deveria demonstrar a sua dedicação ao Senhor, observando fielmente o calendário religioso (16.1-12).

Deuteronômio não se importa somente com os aspectos religiosos da nação de Israel. O livro trata de vários aspectos da sociedade humana também. As questões de liderança, guerra, crimes, relações familiares e questões econômicas e comerciais fazem parte das orientações que Moisés deixou ao povo. O livro inclui diversas instruções que visam à proteção da família e do casamento (22.13-30; 24.1-5), a devolução de animais perdidos (22.1-4), a segurança pública na construção (22.8), a preservação de famílias (25.5-10) e a necessidade de observar práticas comerciais justas (25.13-16). O povo que se chama pelo nome do Senhor deve mostrar as características do seu Deus em todas as áreas de vida.

O segundo sermão termina com duas passagens que merecem destaque. A primeira se encontra em 26.1-15 e fala da oferta das primícias.  Esta passagem inclui uma recitação que muitas vezes é chamado o credo deuteronomístico (26.5b-9). É uma declaração de fé na forma de uma recitação histórica dos atos de Deus e foi recitada no ato de entregar uma oferta de primícias ao sacerdote. Neste ato de culto o adorador recitava um resumo da história de Israel desde a entrada de Jacó no Egito até a chegada à terra de Canaã. Esta recitação serviu como uma declaração de fé no Deus que operou maravilhas ao longo do caminho para levar o seu povo até a terra prometida. A recitação do credo era feita no plural da primeira pessoa. Assim, o adorador recitou a história como se estivesse presente, quando os eventos aconteceram. Desta maneira, adoradores em qualquer época da história de Israel poderiam se identificar com os seus antepassados, criando uma solidariedade entre a geração passada e as gerações seguintes, “atualizando” a história em cada nova geração de israelitas.

A segunda passagem que merece destaque neste sermão são as bênçãos e maldições que se encontram em capítulos 27 e 28. Esta passagem serve tanto para concluir o segundo sermão como introduzir a renovação da aliança que segue logo no capítulo 29. Depois de entrar na terra, era para o povo se reunir nos montes Ebal e Gerizim e pronunciar as promessas de bênção e maldição. O texto de Deuteronômio só preserva as maldições, mas, conforme Js. 8.33-35, as palavras de bênção foram pronunciadas, também. É importante notar que as promessas de bênção e maldição foram explicitamente vinculadas à obediência às ordenanças da aliança (27.1, 10; 28.1,2,15). As bênçãos prometidas incluíram prosperidade (28.3-5, 8, 11), vitória sobre os seus inimigos (28.7) e estabilidade e proeminência (28.9,10,13) Estas promessas foram necessárias para estabelecer o povo na terra.

Como é que a Igreja deve interpretar estas passagens? Devemos ceder à tentação de ler estes capítulos como algumas igrejas atuais que destacam somente a promessa de prosperidade? Ou devemos adotar uma leitura dispensacionalista que deporta estes capítulos para uma época distante no passado em que não há relevância nem aplicação ao presente? A resposta se encontra na teologia destes capítulos à luz da estrutura do livro.

Na formação de alianças no Oriente Médio antigo, era comum incluir uma lista de bênçãos pelo cumprimento da aliança e maldições pelo não cumprimento. O propósito da lista de bênçãos e maldições era encorajar os participantes à fidelidade as exigências da aliança. Muitos acham que o livro de Deuteronômio reflete esta estrutura antiga, pelo menosem parte. Aimplicação é que a lista de bênçãos e maldições serve para reforçar as demais exortações à obediência que se encontram no livro. Assim as bênçãos e maldições no livro de Deuteronômio têm uma função histórica específica. Elas se referem ao estabelecimento da nação histórica de Israel e não devem ser interpretadas em termos atemporais.

O contexto histórico específico das bênçãos e maldições, porém, não anula o seu significado teológico para a Igreja. A teologia de bênção e maldição é vinculada à teologia de aliança que predomina no livro de Deuteronômio. Uma teologia de aliança, por natureza, é uma teologia da graça e da justiça de Deus. A graça de Deus se manifestou pelo seu desejo de escolher um povo e transmitir a este povo as suas bênçãos. Conforme Dt. 7.7-9, este desejo de Deus baseou-se na sua fidelidade às promessas patriarcais:

“O SENHOR não se afeiçoou a vocês nem os escolheu por serem mais numerosos do que os outros povos, porque vocês eram o menor de todos os povos. Mas foi porque o SENHOR os amou e por causa do juramento que fez aos seus antepassados. Por isso ele os tirou com mão poderosa e os redimiu da terra da escravidão, do poder do Faraó, rei do Egito. Saibam, portanto, que o SENHOR, o seu Deus, é Deus; ele é o Deus fiel, que mantém a aliança e a bondade por mil gerações daqueles que o amam e obedecem aos seus mandamentos.” (NVI)

O estabelecimento de uma aliança implica no direto e responsabilidade de Deus julgar também. Um povo que aceita uma aliança tem uma responsabilidade para com Deus quanto à obediência. O não cumprimento das obrigações da aliança conforme a história da formação de alianças antigas exigiu uma resposta dura por parte de Deus:

“Mas àqueles que o desprezam, retribuirá com destruição; ele não demora em retribuir àqueles que o desprezam. Obedeçam, pois, à lei, isto é, aos decretos e às ordenanças que hoje lhes ordeno (7.10, 11).”

A teologia de castigo pela desobediência da aliança é um tema que começa no livro de Deuteronômio e continua até os livros proféticos. Deus falou por meio do profeta Isaías dizendo: “Criei filhos e os fiz crescer, mas eles se revoltaram contra mim” (Is. 1.2b).  O profeta Amos declarou: “Escolhi apenas vocês de todas as famílias da terra; por isso eu os castigarei por todas as suas maldades” (Am. 3.2). Nestas proclamações, os profetas vincularam dois aspectos de uma teologia de aliança—a graça de Deus demonstrada pela escolha de Israel e a responsabilidade de Israel como o povo escolhido. Na sua teologia do Antigo Testamento, Paul House ofereceu o seguinte resumo:

“Deuteronômio 27-28 é o oferecimento sincero ou de graça divina ou de juízo divino. O fato de que Deus chega a revelar essa proposta de relacionamento constituiu graça, pois seres humanos não possuem meio algum de discernir a vontade de Yahweh sem direção claramente dada por Yahweh. Por isso a oportunidade de os israelitas receberem bênçãos por fazer o que devem fazer como criaturas de Deus representa uma graciosidade ampliada e inesperada. Rejeitar a graça traz catástrofe certa. O juízo de Yahweh sempre acompanha a graça rejeitada. Israel só pode merecer castigo por rejeitar a lei mosaica quanto, em anos futuros, os escritos proféticos e de sabedoria baseados naquela lei. Cada nova geração deve aprender os resultados de reagir a Deuteronômio 27 e 28”.[9]

Convite para vida

O último sermão do livro é uma chamada para o povo se comprometer de novo às obrigações da aliança. De acordo com 29.1, esta aliança foi “além da aliança que tinha feito” em Horebe, no deserto de Sinai. Dumbrell entendeu que esta era uma nova aliança acrescentada à antiga feita no deserto do Sinai. A novidade é que o povo se comprometeu a viver uma vida de obediência na terra à luz dos requerimentos novos em Dt. 12-26.[10] Talvez a melhor maneira de entender esta nova aliança seja como um suplemento à primeira, porque não é uma aliança completamente nova sendo esta aliança baseada também nos Dez Mandamentos.[11]

Neste sermão, Moisés pediu que o povo seguisse “fielmente os termos desta aliança” (29.9), porque seria a base da vida do povo na nova terra. Esta aliança determinaria o futuro da nação que ainda estavaem formação. Moisésrelembrou o povo de novo do cuidado de Deus que levou as tribos até a terra, dando vitória sobre os inimigos (29.2-8). A aliança não era somente para aqueles presentes naquele momento, mas também para as gerações futuras (28.14,15). Novamente o livro mostra o aspecto dinâmico da instrução de Deus que é renovada a cada nova geração. É uma aliança dentro do alcance de todos (30.11).

A importância desta aliança para a vida futura do povo pode ser vista claramente em 30.15-20. Moisés pôs diante do povo a possibilidade de escolher ou a vida ou a morte, a prosperidade ou a destruição. A permanência do povo na terra dependeria da sua fidelidade às obrigações da aliança. Mais que qualquer outra coisa, a terra foi o símbolo do cumprimento das promessas que o Senhor fez aos patriarcas (30.20). A lei foi lida como base na aliança (31.9-13) e depois colocada na arca da aliança como testemunho contra o povo (31.24-26). O critério de julgamento para toda e qualquer desobediência seria a objetividade da lei que todos aceitaram pela renovação da aliança.

O terceiro sermão termina com o “Cântico de Moisés” (31.30-32.43), as “Bênçãos de Moisés” (33.29) e um epílogo que relata a morte de Moisés (34.1-10). É apropriado terminar este livro com um cântico e bênçãos. Como Jacó abençoou os seus filhos no fim do livro de Gênesis, Moisés se despediu do povo com a sua bênção. A palavra final da bênção nos oferece um fechamento adequado ao livro:

Como você é feliz, Israel!

Quem é como você,

Povo salvo pelo SENHOR?

Ele é o seu abrigo, o seu ajudador

E a sua espada gloriosa.

Os seus inimigos se encolherão diante de você,

Mas, você pisará as suas colinas.” (33.29 NVI)

Deuteronômio e a Igreja

Agora, quero dar atenção ao livro de Deuteronômio e a Igreja. A Igreja contemporânea lê o livro de Deuteronômio num clima de paradoxo. Por um lado o livro foi escrito em um contexto histórico específico que não se repete.  Nós concordamos com o historiador americano John Bright que afirmou que esta história não é normativa para a Igreja.[12] As exortações e orientações foram oferecidas para pessoas que viviam numa situação histórico-cultural específica. É o que podemos chamar a particularidade histórica do livro. Por outro lado a Igreja aceita a inspiração do livro e entende que o livro é digno de ser lido e aproveitado pela Igreja. Implica na possibilidade de ler e entender essa “particularidade histórica” como algo que pode edificar a Igreja.

Como é que a Igreja deve ler Deuteronômio hoje? Oferecemos as seguintes considerações:

1.          Leiamos Deuteronômio para conhecermos melhor a Deus. O livro de Deuteronômio é um livro em que a centralidade do Senhor se destaca. No início lemos que “Moisés proclamou aos israelitas todas as ordens do SENHOR” (1.3). Após uma breve introdução histórica encontramos a seguinte declaração: “O SENHOR, o nosso Deus, disse-nos em Horebe” (1.6). Esta ênfase continua até 33.29 que anuncia: “Quem é como você, povo salvo pelo SENHOR?” Do início até o fim, é a voz do Senhor Deus e a sua presença que se destacam. Por meio do livro podemos conhecer o Deus que guia e orienta a história. É este Deus que andou em frente do seu povo (1.30), dando orientações para a vida, até orientações específicas para situações específicas. É o Deus do cotidiano, o Deus para toda a vida.

A centralidade de Deus se destaca nas declarações da maneira em que este Deus se revelou. Conhecemos que este Deus é o único Deus e não há outro além dele (4.39). É o Deus invisível, mas presente (4.15). Por isso toda e qualquer tentativa de formar imagens de Deus ou de criar representações falsas deste Deus é proibida (4.16-19). O livro de Deuteronômio ensina que nós somos incapazes de reduzir o Deus Vivo a uma forma mais agradável ou aceitável aos nossos olhos e ouvidos. No livro de Deuteronômio Deus não é um Deus que pode ser manipulado pelo homem. Aliás, Ele é o Deus que nos criou e que é capaz de agir na história para cumprir a Sua vontade. (4.32-34) Ele é o Deus do nosso passado, do nosso futuro e do nosso presente.

2.         Leiamos Deuteronômio para obedecermos melhor a Deus.  A centralidade de Deus implica diretamente em nosso relacionamento para com Ele. Sendo este Deus o único (6.4), Ele merece a nossa devoção total (6.5). Não existe nenhum aspecto da vida humana que fica fora da soberania dele (6.6-9). Por isso, o livro de Deuteronômio sempre repete as exortações à obediência.

O livro ensina que a obediência não é uma opção para o povo que se chama pelo nome deste Deus. A oferta de uma aliança e a aceitação desta aliança por parte do povo criam duas obrigações principais. A primeira é que Deus se torna o Senhor do povo. Ele criou este laço pelo Seu amor e é pelo Seu amor que Deus mantinha o laço (7.8, 9). Ele se comprometeu a ficar fiel às suas promessas, abençoando o povo pela sua obediência. A prova da fidelidade de Deus é demonstrada pelo cumprimento das Suas promessas. O livro de Deuteronômio nos ensina que Deus é digno da nossa confiança.

A segunda obrigação baseia-se no fato de que o povo da aliança pertence a Deus. O povo pertence a Deus primeiramente pelo direito de criação (4.32) e depois pelo direito de aquisição (4.34) e eleição (7.7, 8). A nossa obrigação é obediência incondicional ao Deus que nos fez e que nos remiu e que nos chama para ser o Seu instrumento na terra.

3.         Leiamos Deuteronômio para cultuarmos melhor a Deus.  A centralidade de Deus na vida do povo de Deus é demonstrada também pelas características e qualidades da sua adoração. O povo de Deus está convidado para amar a Deus “de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças” (6.5). Uma das maneiras de fazer isso é por meio do nosso culto. No livro de Deuteronômio, o culto legítimo foi restrito ao lugar que Deus designou (12.5). O motivo desta limitação era de natureza prática. Numa terra onde várias práticas religiosas eram observadas, a ameaça de sincretismo era grande. Para limitar a influência desta ameaça no meio do povo, Deus designou um lugar para o culto legítimo.

Deuteronômio nos ensina que o culto que nós oferecemos ao nosso Deus não pode ser oferecido de qualquer forma. É óbvio que o nosso culto deve ser dirigido unicamente ao Senhor e a idolatria é expressamente proibida. Em nossa cultura hoje em dia, esta proibição ainda deve ser observado. O requerimento de um culto legítimo exige mais que a ausência de imagens. O Antigo Testamento em geral e o livro de Deuteronômio em particular fazem uma distinção nítida entre o culto pagão e o culto verdadeiro. A adoração legítima não deve ser definida pela cultura, mas pela natureza do Deus que recebe a nossa adoração. Ceder à tentação de estruturar os nossos cultos pensando principalmente no público alvo e não no Deus Todo Santo é um erro grave. A ameaça do sincretismo ainda permanece. O livro de Deuteronômio nos ensina que o culto é expressamente teocêntrico e não antropocêntrico. Incluir práticas no culto que vem da cultura popular ou de práticas pagãs, oferecer objetos com a promessa de cura ou bênção, convidar pessoas para participar em procissões, pisar em sal, sessões de descarrego e outras práticas, visam criar uma dependência de uma igreja ou de uma pessoa e não do Deus Vivo. Estas práticas não têm lugar na igreja.

4.         Leiamos Deuteronômio para vivermos melhor com Deus. A centralidade de Deus no livro de Deuteronômio nos ensina como viver melhor como o povo de Deus. Uma das funções principais do livro foi instruir a nova geração de israelitas como deviam viver na nova terra que Deus lhes deu. As instruções que Deus entregou a Moisés foram relidas e reinterpretadas para a nova geração conhecer melhor o que Deus esperava do seu povo.

Assim o livro de Deuteronômio nos ensina que a vida na presença de Deus é uma vida dinâmica. Ser parte do povo de Deus não é fazer parte de um clube social que só tem como fim manter o status quo, mas é tornar-se parte de uma família que tem um relacionamento vivo e dinâmico com o único Deus Vivo. A vida do povo de Deus implica tanto em responsabilidades como direitos. A pureza, compaixão, justiça e misericórdia devem ser as “marcas registradas” de um povo que pertence a Deus. Singeleza de coração, honestidade e união de propósito devem fazer parte da vida do povo que se chama pelo nome do Senhor. No livro de Deuteronômio o conhecimento do Deus Verdadeiro e a prática de religião verdadeira “andam de mãos dadas”. O livro não contem somente orientações religiosas, mas instruções vivas para quem deseja viver como cidadão do mundo e do céu.

Conclusão

A importância e a influência do livro de Deuteronômio não devem ser subestimadas. Entre os livros do Antigo Testamento, é um dos mais citados pelos autores do Novo Testamento. Quando tentado, Jesus citou três vezes versículos do livro. Quando alguém perguntou a respeito do grande mandamento, Jesus recitou Deut. 6.4. A sua influência pode ser vista pelos membros da comunidade judaica, que afixam o shema’ às portas das suas casas. Quanto a sua importância para a Igreja, os temas que o livro nos apresenta ainda nos instruem. A centralidade de Deus, a necessidade de obediência incondicional, a importância de um culto legítimo e puro, em que o Senhor é honrado, e a responsabilidade de viver uma vida autêntica na presença de Deus—tudo isso a Igreja precisa ouvir e guardar, de geração a geração.

BIBLIOGRAFIA

BIRCH, Bruce, BRUEGGMANN, Walter, FRETHEIM, Terrence E., e PETERSEN, David L. A Theological Introductionto the Old Testament. Nashville: Abingdon, 1999.

BRIGHT, John. The Authority of the Old Testament. Grand Rapids, MI: Baker, 1975.

DILLARD,  Raymond. B. e LONGMAN, Tremper III. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006.

DUMBRELL, Willaim J. The Faith of Israel: A Theological Survey of the Old Testament. 2a edição. Grand Rapids, MI: Baker, 2002.

HILL, Andrew E. e WALTON, J. H. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2000.

HOUSE, Paul R. Teologia do antigo testamento. São Paulo: Vida, 2005.

KAUFMAN, Stephen. “The Structure of the Deuteronomic Law” em MAARAV 1.2 (1978), pp.105-158.

POLZIN, Robert. “Deuteronomy” em The Literary Guide to the Bible. ed. por Robert Atler e Frank Kermode. Cambridge: Harvard, 1987, pp. 92-101.


[1] Veja a discussão em Andrew E. Hill e J. H. Walton, Panorama do Antigo Testamento (São Paulo:Vida, 2000), pp. 145-148 e Raymond B. Dillard e Tremper Longman III, Introdução ao Antigo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2006), pp. 95-97.

[2] Robert Polzin, “Deuteronomy” em The Literary Guide to the Bible ed. por Robert Atler e Frank Kermode (Cambridge: Harvard, 1987), pp. 92-101.

[3] Polzin atribuiu 56 versículos ao narrador. Ibid., p. 92.

[4] Dt. 2.22; 3.14; 4.26, 39; 8.11; 26.16-18; 28.13; 29.4, 12, 13; 30.18, 19; 32.46; 34.6.

[5] De acordo com alguns, é possível falar de uma “tendência atualizante”dentro da estrutura de Deuteronômio. Esta tendência pode ser endendida como o processo de atualizar e fazer real o passado em toda geração presente. Veja Bruce C. Birch, Walter Brueggemann, Terence E. Fretheim, e David L. Petersen, A Theological Introduction to the Old Testament (Nashville: Abingdon, 1999), p. 168.

[6] William Dumbrell entendeu a recitação histórica em Dt.1-3 como uma ilustração da falha por parte do povo de Israel de confiar totalmente em JAVÉ. Veja William J. Dumbrell, The Faith of Israel: A Theological Survey of the Old Testament, 2a ed. (Grand Rapids: Baker, 2002), p 57.

[7] Walton, Dillard, e Longman citaram a obra de Stephen Kaufman , “The Structure of the Deuteronomic Law” em MAARAV 1.2 (1978), pp.105-158) que entendeu a estrutura do livro de Deuteronômio como uma exposição do Decálogo. Veja Hill e Walton, pp. 150-156 e Dillard e Longman, pp. 98-99.

[8] Paul House, Teologia do Antigo Testamento, (São Paulo: Vida, 2005), p. 224, disse que “o âmago da aliança não é obediência compulsória ou obrigatória, mas amor.” 

[9] House, p. 242.

[10] Dumbrell, p. 63.

[11] Birch et al, p. 148, 156.

[12] John Bright, The Authority of the Old Testament (Grand Rapids, MI: Baker, 1975), p. 147.

2 respostas para O livro de Deuteronômio na sala de aula e na igreja

  1. Maria disse:

    Amei……foi muito bem explicado,entendo que para eu fazer parte do povo de Deus tenho que obedecer todas as leis determinada por Deus através de Moisés,que o culto de adoração a Deus seja um culto verdadeiro de amor.Pois Deus conhece e se relaciona conosco através do coração e não por atitudes e regras.A igreja tem suas regras,pois ela é uma instituição criada pelo homem,mas os fies dessa instituição tem a obrigação de manter a Igreja alicerçada pelo amor fraternal e eterno de Deus.Muitas Igrejas deixam as regras serem muito mais representadas e em alto destaque nas igrejas do que o próprio Espírito Santo.Tem igrejas que sufoca o Espírito Santo,não deixa o espírito tocar em si na hora do culto de adoração a Deus.Pois eu entendo que o Espírito Santo esta comigo deis que aceitei a Jesus como o meu salvador ,pois o próprio Jesus nos disse subirei aos céus para que o Espírito Santo possa descer. A Lei é clara tanto a primeira tanto como a segunda lei que é o suprimento da primeira,apenas foi tirada algumas regras que para Deus é de menor importância.Todos os livros da Bíblia destaca a criação amada de Deus que é incompreendida pelo homem,é distorcida.

  2. Ótimo material!! Parabéns!!

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