O Determinante do Significado

Em termos gerais, a hermenêutica é a disciplina que trata das teorias pelas quais o sentido de um evento, objeto, ou texto é comunicado para ouvintes ou leitores. Quando a hermenêutica trata da interpretação de textos escritos, é geralmente reconhecido que existem três elementos principais no processo de comunicação: o autor do texto, o texto, e o leitor ou ouvinte do texto. Qual desses elementos é o determinante do significado? Hoje em dia, existem três posições gerais que tentam responder a esta pergunta:

 O leitor/ouvinte como determinante do sentido

Primeiro, consideramos o papel do leitor na interpretação de um texto. De acordo com este ponto de vista, o leitor é quem define o significado do texto pelo processo de ‘atualização’. Por meio deste processo, o leitor lê ou ouve o texto e começa o processo de ‘decifrar’ o texto por conta própria. Conforme essa abordagem, o leitor não precisa saber nada do contexto histórico em que o texto foi produzido nem o propósito do autor que escreveu, porque é o próprio leitor que ‘cria’ o significado do texto.

Essa ‘metodologia hermenêutica’ permite uma interpretação do texto a partir de uma leitura particular. Assim, brasileiro, americano, homem, mulher, capitalista, ou marxista pode ler o mesmo texto e chegar a interpretações diferentes. Esse processo pode ser comparado a uma lousa vazia em que o leitor ‘escreve’ o que quiser sobre o sentido do texto.

Esse tipo de ‘interpretação’ é praticado por muitos, mesmo não sabendo as dificuldades que essa metodologia pode produzir. Quantas vezes nós ouvimos alguém, bem intencionado, dizer o seguinte: “Esta passagem significa isso para mim.”? É um exemplo ‘inocente’ de uma leitura do texto em que o próprio leitor impõe o seu sentido particular no texto, mesmo se o texto não quer dizer isso. O perigo de uma leitura ‘particular’ desse tipo deve ser óbvio, especialmente quando se trata do texto bíblico, porque fere o princípio de que o sentido tem que sair do texto e não ser levado ao texto pelo leitor.

 O texto como determinante do sentido

Uma segunda maneira de entender o processo hermenêutico é que é o próprio texto que gera o sentido. De acordo com este ponto de vista, o leitor não cria o sentido no texto, mas recebe o sentido diretamente do texto. Assim, o leitor participa no processo como ouvinte, deixando o texto falar por si mesmo. Uma vantagem desta maneira de tratar do texto é que o leitor não pode ‘modificar’ o que o texto diz por que seu papel é só como ouvinte.

Como é o caso de uma hermenêutica orientada pelo leitor, uma hermenêutica orientada unicamente pelo texto também tem problemas. Por exemplo, alega que é o texto que ‘produz’ o sentido e este sentido é claramente visto pelo leitor. A dificuldade desta afirmação é que não há como garantir que o leitor vai extrair corretamente o sentido do texto. De acordo com este entendimento, o texto que o intérprete pretende esclarecer é ‘literatura’ e não possui em si mesma uma ‘voz’ senão a voz do interprete. O escritor humano original ‘perdeu’ controle sobre o seu texto e o texto se torna ‘independente’, sujeito a qualquer interpretação que o intérprete quer dar. Por isso, uma hermenêutica orientada do ponto de visto do próprio texto corre o risco de produzir ‘interpretações’ individuais e particulares.

Quando se trata do texto bíblico, o intérprete tem que entender que o texto é o produto do pensamento do seu autor que escreveu dentro de um contexto histórico específico, sob a orientação e motivação do Espírito Santo. A inspiração, porém, não é uma garantia de que a interpretação que é exposta pelo intérprete foi a intenção original do autor do texto. O fator determinante do sentido do texto não pode ser nem o leitor nem o próprio texto, mas, sim, o autor do texto.

 O autor como determinante do sentido

De acordo como esse ponto de vista, o sentido do texto é determinado pelo autor que escreveu o texto. Os que defendem essa posição argumentam que é porque o escritor escreveu seu texto em um momento específico e em um contexto histórico específico, o significado do texto só pode ser determinado à luz desse contexto. A implicação principal é que o leitor não pode interpretar o texto do seu jeito sem considerar o que o autor do texto queria comunicar originalmente.

Para muitos intérpretes, essa metodologia é a única que pode produzir uma interpretação válida porque evita os perigos de interpretações individuais que fogem do propósito original do autor. O argumento principal oferecido contra essa metodologia é que é impossível para o leitor ou intérprete moderno  ‘entrar’ na mente de um autor que já morreu para reconstruir o pensamento dele quando escreveu. Contra este argumento, dizemos que a tarefa do intérprete não é ‘entrar’ na mente do autor, mas descobrir o significado do texto que o autor escreveu. A distância que existe entre o autor do texto e o leitor contemporâneo pode ser superada, pelo menos em parte,  pela aplicação de princípios de interpretação específicos reconhecidos pelos intérpretes modernos hoje em dia. A metodologia histórico-gramatical, reconhecida desde os primeiros anos da história de hermenêutica, ainda é válida como uma maneira de resgatar o sentido de um texto escrito há séculos. O conhecimento dos elementos gramaticais to texto abre uma ‘janela’ para o sentido do texto. Assim, podemos analisar como o escritor original colocou seus pensamentos em forma escrita.

A convicção geral entre intérpretes evangélicos é que o texto bíblico é inspirado por Deus e que o Espírito Santo é capaz de guiar o crente a compreender o texto. A atuação do Espírito na vida do intérprete não é uma garantia de que a interpretação oferecida seja correta e nem é um substituto pela preparação acadêmica e estudo sério da Bíblia. Eu creio que o Deus que motivou e capacitou os escritores humanos a registrar as palavras, é, também, capaz de nos guiar à toda verdade (João 16:13). Como escreveu o apóstolo Paulo: “Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, mas sim o Espírito que provém de Deus, a fim de compreendermos as coisas que nos foram dadas gratuitamente de Deus”(1Cor. 2:12).

 BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

 

HIRSCH, E.D. Validity in Interpretation. New Haven, CT, EUA: Yale  University Press, 1966.

KAISER, Walter e SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica: Como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. Tradução de Paulo César Nunes dos Santos, Tarcízio José Freitas de Carvalho, e Suzana Klassen. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. Tradução de Daniel de Oliveira, Robinson N. Malkomes, e Sueli da Silva Saraiva. São Paulo: Vida Nova, 2009.

STEIN, Robert H. Guia básico para a interpretação da Bíblia: interpretantdo conforme as regras. Tradução de Adão Pereira da Silva. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.

 

Uma resposta para O Determinante do Significado

  1. Antonio Carlos disse:

    Prof. Landon, gostei muito do artigo, pois permite uma leitura preliminar das opções do viés hermenêutico, deixando o iniciante de posse do que vai acabar encontrando na literatura deste tema.
    Gostaria se possível que o Sr. me enviasse uma bibliografia sobre introdução/teologia do VT.
    Deus o abençoe.

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